Sem lugar

25 anos, sem lugar no mundo. Excluída e mortificada. Sem jeito. Explorada e enganada. Sem nunca chegar a nada. Cansada. Dor de cabeça latejando nas entranhas. Associação livre da burrice com a covardia. Criancinha pequena e isolada, coitada. Quero matar você. Como seria só eu no mundo? Seria engraçado. Que raiva, que ódio. Que covardia. Você se colocou nisso, não é mesmo? Como vai sair disso se não for você mesma a se enxotar daí? Cadê seu quarto? Cadê sua cama? Não tem. Não existe. Você não existe. O que você é hoje é só um monte de expectativas dos outros. E agora? O que você vai fazer com isso? Vai enterrar ainda mais fundo pra fazer de conta que está tudo bem pra depois vomitar aquela raiva de qualquer jeito no mundo? Você é uma criança sem sentido. Sua vida não tem sentido. Você achou que ia salvar o mundo dele mesmo, que iriam cantar canções sobre você, que te beijariam os pés por tamanha bondade e caridade. Mas você é só um monte de bosta que não serve pra nada. Você é só um monte de porcaria na esquina da rua esperando pelo lixeiro passar e te transformar em algo mais inútil ainda. Você é uma bela de uma porcaria.

Sobre estar perdido

Cheguei em um ponto onde minha emoções se confundem e meus pensamentos lutam para se organizar. Sinto eles desejando a liberdade, porém eu não os permito tamanha rebeldia. Seria uma afronta à minha autoridade enquanto pessoa e ser racional. Seria uma afronta ao meu ideal de perfeição encarar a dor, o desespero, a insegurança. Perceber que eu mesma posso ser a causa do meu sofrimento. Ao menos em parte.

Ultimamente tem sido difícil admitir minhas responsabilidades, principalmente as que tenho comigo mesma. É como se dentro da minha cabeça existissem dois personagens antagônicos lutando pelo papel principal. Uma filha rebelde tentando se libertar e uma mãe opressora que insiste na censura. E isso nunca foi tão forte como é hoje. Doce ilusão minha pensar que o processo de me libertar e de saber os meus limites seria uma linha reta. É uma montanha-russa e hoje parece que o brinquedo estragou justo quando eu estava de cabeça pra baixo.

Quantas vezes já quis voltar no tempo e tentar corrigir tudo o que eu imagino que tenha sido um erro. Hoje eu enfrento as consequências das minhas escolhas, mas a verdade é que eu nem me lembro delas. Não me lembro mais dos seus porquê, sobre quando ou onde elas surgiram. E se lembro, parece mais que estou inventando lembranças para preencher uma lacuna na memória.

E me prendo a isso. Aos porquês que já nem existem mais. Insisto em procurá-los no passado, quando talvez eu devesse estar criando novos porquês para novas escolhas.

E na tentativa de voltar no tempo, eu paro. Estaciono minha vida e tudo o que me rodeia, na expectativa de que o passado uma hora irá me alcançar. Mas ele não vai, o seu tempo já foi, e o meu está indo. Cada segundo percebido é como um sopro de vento gélido percorrendo a minha espinha. Como fazer para que o tempo pare? Para que os meus neurônios parem de morrer, minha coluna pare de entortar, minha juventude e meus ideais parem de se esvair?

Parece que não é possível, por mais esforço que eu coloque nisso, o tempo sempre virá como um aviso da minha finitude – seja do eu criança e adolescente – ou da continuidade das minhas escolhas. Por mais que muito de mim tenha terminado, ainda carrego as responsabilidades que esse outro eu fez no passado. E elas não irão sumir até que as cumpra, ou as abandone.

Cansa muito ter de arcar com responsabilidades que parecem já não mais pertencer. Porém também não tive coragem de abrir mão delas quando ainda havia tempo. Tempo. Não há mais tempo. E meu senso de dever não cansa de falhar, seja para mais ou para menos.

A Leap

Ela não pensou duas vezes antes de dizer sim para ele. Olhou no fundo de seus olhos e entendeu que aquele momento era o ponto final da sua vida. Deram as mãos, olharam-se uma última vez. Um olhar demorado e lacrimejante, como quem pede desculpas e agradece ao mesmo tempo. Sua vida inteira havia sido construída com pilares de mentira, ódio e arrependimento. E só agora fazia sentido a ela deixar tudo isso para trás e dar um passo fatal em direção ao vazio. O vento soprou forte, gélido e fantasmagórico. Ele balançou no vértice entre o concreto e o nada. Ela manteve-se ereta e firme ao chão, algo que nunca havia conseguido fazer. Foi aí que teve a certeza de que o seu destino era o chão. Sempre fora o chão. Mesmo quando tentava fugir deste, nas alturas por entre as nuvens, iludindo-se de que poderia voar cada vez mais alto até sair da órbita, o chão permanecia lá, esperando-a, duro e tirano, para que ela se confrontasse com a realidade de que em algum ponto da vida todos iremos cair e não mais nos levantar. Eles estenderam o pé direito à frente ao mesmo tempo, como que sincronizados em suas doenças, e deram um último passo no ar, com a esperança da vida nunca mais voltar.

O fim do túnel

Já faz algum tempo que não amo ninguém e que os sentimentos que alimento são apenas os impossíveis. Desejar o outro por uma tela me dá prazer e me faz transbordar de ansiedade. A fantasia ideal. A migalha, a fagulha de esperança que o desejo e o capitalismo alimentam, eu as mantenho perto e vivas pois nesse dia-a-dia sem real propósito preciso de um conforto emocional, e quanto mais a ausência de sentido se aprofunda, mais caem as exigências.

Não amo ninguém por medo. Medo de amar a mim mesma e com isso descobrir que existe alguém com falhas e fissuras nessa armadura antes tão bem posta. Medo de desejar e conseguir. De chegar à estação final. Pra mim a linha de chegada passa a ser insuportável. Como eu posso desejar com tanta força e ao mesmo tempo ter terror do meu desejo? Deveríamos ter medo dos pesadelos, não dos sonhos.

metro