Sobre estar perdido

Cheguei em um ponto onde minha emoções se confundem e meus pensamentos lutam para se organizar. Sinto eles desejando a liberdade, porém eu não os permito tamanha rebeldia. Seria uma afronta à minha autoridade enquanto pessoa e ser racional. Seria uma afronta ao meu ideal de perfeição encarar a dor, o desespero, a insegurança. Perceber que eu mesma posso ser a causa do meu sofrimento. Ao menos em parte.

Ultimamente tem sido difícil admitir minhas responsabilidades, principalmente as que tenho comigo mesma. É como se dentro da minha cabeça existissem dois personagens antagônicos lutando pelo papel principal. Uma filha rebelde tentando se libertar e uma mãe opressora que insiste na censura. E isso nunca foi tão forte como é hoje. Doce ilusão minha pensar que o processo de me libertar e de saber os meus limites seria uma linha reta. É uma montanha-russa e hoje parece que o brinquedo estragou justo quando eu estava de cabeça pra baixo.

Quantas vezes já quis voltar no tempo e tentar corrigir tudo o que eu imagino que tenha sido um erro. Hoje eu enfrento as consequências das minhas escolhas, mas a verdade é que eu nem me lembro delas. Não me lembro mais dos seus porquê, sobre quando ou onde elas surgiram. E se lembro, parece mais que estou inventando lembranças para preencher uma lacuna na memória.

E me prendo a isso. Aos porquês que já nem existem mais. Insisto em procurá-los no passado, quando talvez eu devesse estar criando novos porquês para novas escolhas.

E na tentativa de voltar no tempo, eu paro. Estaciono minha vida e tudo o que me rodeia, na expectativa de que o passado uma hora irá me alcançar. Mas ele não vai, o seu tempo já foi, e o meu está indo. Cada segundo percebido é como um sopro de vento gélido percorrendo a minha espinha. Como fazer para que o tempo pare? Para que os meus neurônios parem de morrer, minha coluna pare de entortar, minha juventude e meus ideais parem de se esvair?

Parece que não é possível, por mais esforço que eu coloque nisso, o tempo sempre virá como um aviso da minha finitude – seja do eu criança e adolescente – ou da continuidade das minhas escolhas. Por mais que muito de mim tenha terminado, ainda carrego as responsabilidades que esse outro eu fez no passado. E elas não irão sumir até que as cumpra, ou as abandone.

Cansa muito ter de arcar com responsabilidades que parecem já não mais pertencer. Porém também não tive coragem de abrir mão delas quando ainda havia tempo. Tempo. Não há mais tempo. E meu senso de dever não cansa de falhar, seja para mais ou para menos.

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